Usar o microbioma do abutre-preto para potenciar a resiliência do Interior
- FAIA BRAVA
- 13 de jan.
- 6 min de leitura
Foi aprovado um projeto spin-off do LIFE Aegypius Return, com o objetivo de gerar impacto nas comunidades do Baixo Alentejo através de investigação científica.
E se o estudo do que vive ao longo da rota orofecal de um abutre pudesse ajudar a proteger simultaneamente a vida selvagem e as pessoas? O novo projeto, “NECROBIOME – Microbioma do Abutre-preto para o Apoio à Gestão Integrada dos Ecossistemas no Baixo Alentejo”, articula investigação científica de ponta com benefícios concretos para as comunidades e paisagem locais.
Assente na abordagem Uma Só Saúde (One Heath), que reconhece a profunda interligação entre a saúde animal, humana e ambiental, o projeto irá explorar novas áreas temáticas e lançar as bases para futuras iniciativas.

O papel dos abutres no ecossistema
Imaginemos uma equipa de limpeza natural que, há milhões de anos, recicla nutrientes e remove carcaças dos habitats. É isso que os abutres fazem.
Embora saibamos que os abutres regulam a presença de microrganismos potencialmente perigosos ao removerem eficazmente carcaças dos ecossistemas, persistem ainda algumas questões sobre a forma exata como contribuem para a prevenção da propagação de doenças e sobre o papel que desempenham neste processo. Não compreendemos completamente como funciona esta dinâmica, nem de que modo os abutres processam naturalmente os microrganismos que encontram durante a sua alimentação.
O que é o microbioma e porque é central neste projeto?
Um microbioma é a comunidade de microrganismos - bactérias, fungos e vírus - que coexistem num determinado ambiente, como o solo, o intestino ou a pele. Pode ser entendido como um pequeno ecossistema dentro de outro ecossistema. Os microbiomas podem tornar-se altamente especializados quando moldados por fatores internos ou externos - como as características intrínsecas do hospedeiro que o acolhe, padrões comportamentais, evolutivos ou condições ambientais.
Os abutres são candidatos ideais para albergar microbiomas especializados: os seus estômagos extremamente ácidos, um sistema imunitário robusto e uma dieta necrófaga obrigatória promovem um microbioma único, que lhes permite consumir carne em decomposição sem adoecer.
O projeto NECROBIOME irá analisar os microbiomas da cavidade oral e da cloaca do Abutre-preto, bem como os microbiomas de carcaças e dos solos onde ocorrem eventos de alimentação. Ao estudar o que acontece às bactérias no interior do sistema gastrointestinal destes abutres, poderemos compreender melhor o contributo destas aves na regulação de agentes potencialmente patogénicos e na reciclagem de nutrientes na natureza.
Serão analisadas mais de 60 zaragatoas, recolhidas maioritariamente de crias de Abutre-preto durante as campanhas de marcação no âmbito do projecto LIFE Aegypius Return. Acompanhando o percurso dos microrganismos - desde que entram no corpo do abutre, até ao momento em que são posteriormente excretados - o projeto procura entender os mecanismos biológicos que permitem aos abutres sobreviver e prosperar.
Abutres e a abordagem One Health
A abordagem One Health é uma abordagem colaborativa e multissetorial que reconhece a interligação entre a saúde humana, animal e ambiental. Esta abordagem promove a ação coordenada entre diferentes disciplinas para enfrentar desafios de Saúde Pública que surgem nestas interfaces, como a resistência aos antibióticos (RAM), a segurança alimentar e as doenças infecciosas emergentes.
Quando um dos sistemas é desestabilizado, podem desencadear-se efeitos em cascata que afetam os restantes. A história tem-nos mostrado repetidamente este padrão. Por exemplo, as infecções por malária aumentaram após o colapso de populações de anfíbios na América Central; ou, mais próximo do nosso tema, os casos de raiva aumentaram na Índia quando as populações de abutres colapsaram. Recentemente, a detecção de genes de resistência aos antibióticos em bactérias isoladas de abutres demonstrou como a atividade humana já influencia a saúde da vida selvagem.
Em Portugal, a alimentação suplementar de aves necrófagas é essencial para as populações de Abutre-preto, uma vez que as fontes naturais de alimento, por si só, não são suficientes. Isto significa que iniciativas de conservação continuarão a fornecer alimento suplementar, recorrendo a subprodutos animais provenientes de explorações pecuárias e/ou atividade cinegética, pelo menos a curto prazo. Compreender melhor as estratégias alimentares dos abutres e os seus mecanismos biológicos intrínsecos, incluindo se e como neutralizam agentes potencialmente patogénicos, torna possível atuar em prol da conservação dos abutres e da saúde pública, ao mesmo tempo que se otimiza o método de fornecimento da alimentação suplementar.
Quando os abutres prosperam, os ecossistemas mantêm-se saudáveis - e nós também. Os abutres são, por isso, espécies-chave para estudar de uma perspectiva integrada. O NECROBIOME dá vida à abordagem One Health, integrando ciência, ambiente e práticas tradicionais para desenvolver estratégias de conservação sustentáveis.

Herdade da Contenda como parceiro estratégico
O NECROBIOME irá trabalhar em estreita colaboração com a Herdade da Contenda, também parceiro do projeto LIFE Aegypius Return. Localizada no Baixo Alentejo, esta herdade alberga uma das apenas cinco colónias reprodutoras de Abutre-preto existentes no país, monitorizada pela equipa da herdade e com forte apoio da ONG Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Ambas as entidades gerem localmente um Campo de Alimentação Privado para Aves Necrófagas (CAPAN) e duas recém aprovadas Áreas Privadas para a Alimentação de Aves Necrófagas (APAAN), apoiando abutres na procura e obtenção de alimento.
Enquanto parte integrante de uma Zona de Proteção Especial (ZPE, ao abrigo da Diretiva Aves), a Herdade da Contenda permite ao NECROBIOME estudar os abutres num ambiente selvagem, mas seguro, funcionando quase como um laboratório natural à escala real.

A Herdade da Contenda, bem como a região mais alargada do Baixo Alentejo, constitui uma zona de alta interação humano-gado-vida selvagem. Trata-se de uma paisagem rural típica, onde a pecuária extensiva, a atividade cinegética e a conservação da natureza coexistem. A área é predominantemente composta por sistemas de montado - florestas de azinheira, sobreiro, pinheiro e pastagens, que sustentam a agricultura tradicional, a silvicultura e o pastoreio locais. Numa perspectiva One Health, estas características tornam a região ideal para testar abordagens e boas práticas que beneficiem simultaneamente as pessoas, os animais e a natureza.
Ciência para a Sociedade: Democratizar o conhecimento
A ciência e a investigação apenas geram impacto se chegarem às pessoas que delas necessitam. O NECROBIOME não seria uma iniciativa bem-sucedida sem um plano sólido para gerar impactos sociais e económicos reais nas comunidades locais. Territórios resilientes e prósperos dependem do envolvimento à escala comunitária, e este projeto coloca este princípio em prática.
O projeto irá promover uma abordagem integrada da Saúde Pública e Saúde Animal, através do desenvolvimento de programas de formação para Agentes Comunitários de Saúde Animal (CAHWs), seguindo o modelo reconhecido pela Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH). Membros-chave da comunidade - como pastores, caçadores, gestores de propriedades, ou outros atores locais que lidam diariamente com gado ou espécies cinegéticas - serão formados nos princípios fundamentais da saúde animal, da proteção individual e da abordagem One Health. Estes indivíduos poderão desempenhar futuramente um papel crucial nos sistemas de alerta precoce de doenças, sinalizando animais doentes ou eventos suspeitos de surto, contribuindo para a salvaguarda da saúde animal e apoiando a implementação de estratégias mais abrangentes de One Health.
O projeto trabalhará igualmente em estreita colaboração com colaborados e funcionários locais com vista à elaboração de um Manual de Boas Práticas de Higiene e Segurança no Trabalho, promovendo condições de trabalho mais seguras no contexto das práticas agrossilvipastoris tradicionais.
O NECROBIOME assumirá desafios em múltiplas frentes, transformando investigação em ação. Ao democratizar o conhecimento, capacita comunidades e partes interessadas para proteger habitats que beneficiam simultaneamente pessoas e vida selvagem. Em paralelo, contribuirá para moldar as políticas e regulamentações do futuro, assegurando que seres humanos e natureza possam prosperar em conjunto.
Financiamento e Colaboração
O NECROBIOME é financiado pela Fundação “la Caixa”, no âmbito do programa “Promove. O futuro do interior 2025”. O projeto reúne uma equipa interdisciplinar, sendo coordenado pela Vulture Conservation Foundation (VCF), em parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto(FCUP) e a Herdade da Contenda.
Com um orçamento de 192.000 €, este projeto spin-off do LIFE Aegypius Return teve início em novembro de 2025 e decorrerá até outubro de 2028, prevendo-se que os seus resultados contribuam tanto para estratégias de conservação da biodiversidade como para políticas de Saúde Pública em territórios europeus.
O projeto financiará ainda um estudante de doutoramento - o primeiro a ser integrado na equipa da VCF - garantindo a publicação científica e a ampla disseminação do conhecimento produzido.
O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.





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