Proteção do abutre-preto em destaque na conferência internacional sobre mitigação de impactos de linhas elétricas
- FAIA BRAVA
- há 1 dia
- 4 min de leitura
O projeto LIFE Aegypius Return apresentou a abordagem diplomática e científica adotada em Portugal para compatibilizar a transição energética com a proteção da biodiversidade.

Infraestruturas elétricas são fator de mortalidade para aves
As infraestruturas elétricas – incluindo linhas de transmissão, distribuição e os respetivos apoios – representam uma das maiores ameaças à conservação das aves a nível mundial, causando anualmente a morte de milhões de indivíduos de diversas espécies. As aves de grande porte, como as rapinas e necrófagas, que frequentemente apresentam estados de conservação frágeis, encontram-se entre as vítimas mais comuns.
A mortalidade causada por estas estruturas deve-se, essencialmente, a dois fenómenos:
Colisão: Ocorre devido à dificuldade das aves em visualizar os cabos condutores e de terra no seu campo de visão frontal, razão pela qual estes cabos devem ser devidamente sinalizados.
Eletrocussão: Acontece quando as aves utilizam os apoios como poiso ou local de nidificação, estabelecendo contacto entre diferentes componentes sob tensão (fases) ou entre um condutor e a estrutura ligada à terra.
Vários projetos europeus (e.g. LIFE PowerLines4Birds, LIFE SafeLines4Birds, LIFE Danube Free Sky) têm combatido estas ameaças através da deteção de pontos críticos e da posterior instalação de dispositivos anticolisão (sinalizadores) e isolamento de estruturas perigosas. Com a aceleração da transição energética, o aumento de projetos de energia renovável e das respetivas redes de transporte torna urgente o desenvolvimento de soluções técnicas que minimizem o impacto na vida selvagem e na funcionalidade ecológica da paisagem.

Conferência Free Sky for Birds 2026
Bratislava, capital da Eslováquia, acolheu este evento de referência para a discussão de soluções de mitigação. A Conferência Free Sky for Birds 2026 reuniu mais de 140 peritos de 24 países, representando organizações não-governamentais de ambiente (ONGA), universidades e centros de investigação, agências governamentais, empresas ligadas ao setor da energia, produtores de equipamento e infraestruturas elétricas, e fabricantes de soluções técnicas para minimizar incidentes de colisão e eletrocussão.
O objetivo da conferência foi reunir diferentes perspetivas, trocar experiências e conhecimento, partilhar progressos tecnológicos e promover a cooperação intersetorial e internacional, de forma a acelerar os esforços de proteção das aves e dos seus habitats.

Tecnologia aliada à conservação
O programa contou com cerca de 50 oradores, pósteres científicos e uma mostra de fornecedores e soluções técnicas atualmente disponíveis no mercado.

Houve lugar a uma saída de campo a áreas protegidas na Eslováquia, na Hungria e na Áustria, onde foram demonstradas distintas técnicas de instalação de dispositivos anticolisão e eletrocussão, bem como soluções técnicas em diferentes fases de teste, aplicação e comercialização.
De todo o programa, ressalta a evidente e crescente necessidade de serem desenvolvidas soluções técnicas de prevenção da mortalidade da avifauna que acompanhem o progresso tecnológico do setor energético. Por exemplo, urge o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial e computação que facilitem a monitorização do uso tridimensional da paisagem pelas aves, a deteção de incidentes, e a análise de fatores, à microescala, que reduzam a probabilidade de ocorrência desses incidentes de mortalidade. A célere sinalização de vastas extensões de linhas elétricas depende cada vez mais do uso de dispositivos tecnologicamente avançados (e.g. construídos em polímeros duráveis, emissores de luz-UV, alimentados pelo campo magnético dos cabos condutores, entre outras soluções), passíveis de serem instalados por drones. Evitar o uso de gruas ou elevadores facilita a sinalização de linhas em habitats sensíveis ou de difícil acesso (meios aquáticos, falésias, etc.) e reduz drasticamente o tempo de execução.

Lacunas persistentes
Apesar dos significativos progressos já alcançados na mitigação de impactos do setor energético sobre a biodiversidade, há lacunas que persistem.
Por exemplo, a transição energética é também acompanhada de soluções de mobilidade mais sustentável. A eletrificação ferroviária também causa mortalidade por colisão e eletrocussão, um aspeto frequentemente negligenciado em Estudos de Impacto Ambiental.
Urge a definição de padrões claros e cientificamente validados para distâncias de segurança entre locais de alimentação e reprodução das aves e a instalação de infraestruturas elétricas, à semelhança do estudo publicado no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return para a salvaguarda dos abutres-pretos em relação a turbinas eólicas.
As necessidades da mitigação de impactos estendem-se ainda ao campo legal, sendo uma reivindicação comum a publicação de diretivas comunitárias que regulamentem as medidas de mitigação de impactos e responsabilizem o incumprimento.
O abutre-preto e a abordagem LIFE Aegypius Return
O projeto LIFE Aegypius Return foi apresentado durante a Conferência Free Sky for Birds 2026 como exemplo de boas práticas no que respeita aos esforços desenvolvidos para prevenir efeitos nefastos potencialmente advindos da aceleração das energias renováveis em Portugal. Entre estes esforços conta-se a muito ativa participação em discussões técnicas e processos de consulta pública, a apresentação de argumentos científicos, a mediação diplomática de discussões entre diferentes partes interessadas, e a promoção da cooperação intersetorial no desenvolvimento de projetos sustentáveis e compatíveis com a proteção da biodiversidade.
Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.





Comentários