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Terceiro grupo de abutres-pretos em aclimatação no Douro Internacional


Esta ação do projeto LIFE Aegypius Return objetiva reforçar a mais frágil e isolada colónia de abutres-pretos (Aegypius monachus) do país. Ganha particular relevância depois do grave incêndio que deflagrou na região em agosto passado.

Abutres-pretos do novo grupo em aclimatação. ©Palombar
Abutres-pretos do novo grupo em aclimatação. ©Palombar


Quatro juvenis e uma “cara” conhecida

O novo grupo que ingressou no programa de aclimatação de 2026 é constituído por cinco abutres-pretos: quatro juvenis nascidos em 2025 e o jovem Pousio, nascido na colónia da Vidigueira, em 2024.

Os quatro juvenis foram recolhidos em diferentes pontos da região Centro – Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo), Torredeita (Viseu), Santa Comba (Seia) e Guarda – nos meses de setembro e outubro, com sinais de debilidade e desnutrição.

As crias de abutres-pretos fazem os seus primeiros voos geralmente no mês de agosto, cerca de quatro meses após a eclosão. Depois de alguns voos junto à área natal, tornam-se gradualmente mais autónomos dos progenitores, e por vezes arriscam voos mais longos, exploratórios. Face à sua inexperiência em reconhecer o território ou detetar alimento, podem desorientar-se e passar vários dias sem se alimentar, sendo comum a sua deteção em áreas inusitadas, afastadas dos locais de reprodução, em condições de debilidade e desnutrição.

Foi o caso dos quatro juvenis que agora ingressaram na estação de aclimatação. O indivíduo encontrado na Guarda foi mesmo encontrado numa zona industrial dessa cidade, tendo prontamente sido resgatado pela Rewilding Portugal e pela PSP – Polícia de Segurança Pública, e entregue no CERVAS - Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, gerido pela Associação ALDEIA em Gouveia, onde os restantes três abutres-pretos também já se encontravam em recuperação.


Check-up veterinário e recolha de biometrias antes da admissão na aclimatação. ©Palombar
Check-up veterinário e recolha de biometrias antes da admissão na aclimatação. ©Palombar

Nova oportunidade para o Pousio

O Pousio é a primeira cria conhecida da recente colónia da Vidigueira. É um jovem macho que nasceu no ano em que essa colónia foi descoberta (2024), na Herdade do Monte da Ribeira (HMR). Ainda no ninho, o Pousio foi anilhado e marcado com um emissor GPS/GSM, o que, no mês de janeiro seguinte, permitiu decifrar um terrível incidente. O Pousio foi vítima de tiro de caçadeira, de madrugada e enquanto se encontrava pousado, tendo ficado com mais de 22 chumbos e fragmentos de projéteis nas patas e no corpo. Tendo sido observado muito prostrado na HMR, os funcionários da Herdade chamaram o ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que prontamente o recolheu e entregou no LxCRAS – o Centro de Recuperação de Animais Silvestres gerido pela Câmara Municipal de Lisboa. Seguiu-se um longo processo de recuperação, com várias intervenções médico-veterinárias. A complexidade da situação exigiu a sua transferência para o Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS HV-UTAD), onde foi submetido a novas intervenções. Após o respetivo período de recuperação, o Pousio foi ainda transferido para o CIARA, onde completou os treinos de voo e uma precoce muda de penas. Finalmente, depois de oito longos meses, o Pousio estava plenamente reabilitado e foi libertado na sua colónia natal, em setembro de 2025.

No entanto, nos dias que se seguiram, o Pousio não se alimentou e acabou por pousar em Serpa, aparentemente procurando alimento junto das comunidades humanas. Foi novamente resgatado e entregue no LxCRAS, onde permaneceu até ao ingresso na aclimatação.

Tendo vivido apenas cerca de quatro meses em liberdade, e depois de um processo de reabilitação complexo que envolveu múltiplos procedimentos veterinários e um longo período de recuperação, o Pousio parece ter-se acostumado à presença humana, e à obtenção de alimento por via artificial. Assim, não está em condições de regressar à natureza em segurança. Por esse motivo, a aclimatação dar-lhe-á uma oportunidade de reaprendizagem e de voltar a tornar-se autónomo, após a libertação.


Pousio: Raio-X às patas evidenciando chumbos e fragmentos de projétil; Dedo com garra amputada; Resgate em Serpa após devolução à natureza.
Pousio: Raio-X às patas evidenciando chumbos e fragmentos de projétil; Dedo com garra amputada; Resgate em Serpa após devolução à natureza.


Aclimatação no pós-incêndio

O programa de aclimatação do projeto LIFE Aegypius Return centra-se no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), que alberga uma das colónias de abutre-preto mais vulneráveis do país.

Localizada em Fornos, junto às arribas do Douro, a estação de aclimatação foi construída num terreno do parceiro Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza e é gerida pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural. A infraestrutura principal mede 15 metros de comprimento por 9 de largura, sendo complementada por um contentor que alberga a enfermaria e o centro logístico. Este último assegura o sistema de videovigilância, permitindo a constante monitorização das aves.

Todas estas infraestruturas foram severamente afetadas pelo incêndio que lavrou no PNDI no verão passado. Graças aos donativos de muitas pessoas e entidades, e à célere atuação do parceiro Palombar, a estação de aclimatação e o habitat envolvente foram restaurados a tempo de completar o programa de aclimatação de 2025 e de permitir o de 2026.

No PNDI, oito ninhos de abutres-pretos foram afetados pelo fogo de 2025, com vários completamente destruídos. Duas a quatro crias morreram devido ao incêndio. O restauro do habitat e das zonas de alimentação aparenta ter mantido a maioria das aves adultas no território, mas ainda é cedo para avaliar os impactos das chamas na sustentabilidade da colónia.

O incêndio veio reforçar a importância do programa de aclimatação para colmatar a fragilidade desta colónia.


Estação de aclimatação e habitat envolvente, após o incêndio de agosto 2025 ©Faia Brava
Estação de aclimatação e habitat envolvente, após o incêndio de agosto 2025 ©Faia Brava

Aclimatar abutres como? E para quê?

Os abutres-pretos que ingressam no programa são juvenis dos quais não se conhece a colónia de origem, que deram entrada e foram tratados em centros de recuperação de fauna silvestre. Este ano, por motivos excecionais, o programa recebeu também o Pousio, cujo local de nascimento é conhecido.

Durante a aclimatação, os abutres (re)aprendem os comportamentos normais da espécie, ao socializarem com vários companheiros. Do interior da estação de aclimatação, os abutres observam também os seus congéneres, e outras espécies em liberdade, no exterior e no campo de alimentação para aves necrófagas que se localiza em frente. Durante aproximadamente seis a oito meses (libertação branda – soft release), apreendem as normais interações sociais, como alimentação, cooperação, competição, entre outras. A alimentação e os cuidados são assegurados sem que ocorra qualquer contacto com os tratadores humanos. Chegado o momento da devolução à natureza, a estação é aberta e cada abutre sai livremente quando assim entender.

O soft release é um procedimento consolidado na conservação de abutres, com eficácia comprovada em vários países da Europa. Em comparação com técnicas alternativas, este método favorece a filopatria (fidelização à área) e é recomendado para aumentar a sobrevivência dos indivíduos reabilitados, acelerar a sua fixação ao local da aclimatação e fortalecer a estabilidade demográfica das populações libertadas.

A maioria dos abutres-pretos anteriormente aclimatados no PNDI efetivamente tem-se mantido nas proximidades, sendo continuamente monitorizados.


Novo grupo de abutres-pretos em aclimatação, com aves selvagens no exterior. Imagem obtida por videovigilância.
Novo grupo de abutres-pretos em aclimatação, com aves selvagens no exterior. Imagem obtida por videovigilância.


Agradecimentos

A entrada de um novo grupo de abutres-pretos na estação de aclimatação é sempre um marco importante para o projeto LIFE Aegypius Return, mas também para a conservação da natureza. É, ainda, um momento de assinalar e celebrar a cooperação interinstitucional e de reconhecer o trabalho de todos os envolvidos em todas as etapas:

- Deteção e resgate dos abutres-pretos debilitados. São devidos agradecimentos a todas as pessoas e entidades atentas e que colaboraram no resgate atempado das aves: cidadãos anónimos, Herdade do Monte da Ribeira, GNR - Guarda Nacional Republicana, PSP, ICNF e Rewilding Portugal.

- Reabilitação. Deve-se um reconhecimento especial a todos os Centros de Recuperação para a Fauna e Pólos de Receção que acolhem, tratam e reabilitam os abutres resgatados. Para os cinco abutres que agora entraram em aclimatação, foram incansáveis as equipas do CERVAS, LxCRAS/Câmara Municipal de Lisboa, CRAS HV-UTAD e CIARA.

- Transferência. Para o transporte seguro desde os centros de recuperação até ao PNDI, agradece-se ao ICNF, CERVAS e aos parceiros de projeto VCF - Vulture Conservation Foundation e Faia Brava.

- Check-up e anilhagem. Para a realização do check-up veterinário, anilhagem, recolha de amostras e biometrias foi essencial a cooperação dos parceiros Palombar, Faia Brava, CERVAS, CRAS HV-UTAD e CIARA.

- Evento celebrativo. Por fim, agradece-se a todas as pessoas e entidades que tornaram possível ou que participaram no momento de entrada do novo grupo de abutres na aclimatação: Palombar, Faia Brava, CERVAS, CRAS HV-UTAD, CIARA, Rewilding Portugal, ICNF, Viridia – Conservation in Action.



Fotografia de grupo após a admissão do novo grupo de soft release ©Palombar
Fotografia de grupo após a admissão do novo grupo de soft release ©Palombar


Sobre o projeto LIFE Aegypius Return


 
 
 

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